Taça Warren

Taça Warren
Taça Warren
Material Prata
Criado (a) entre 15 a.C.-15 d.C.[1]
Exposto (a) atualmente Sala 70, Museu Britânico, Londres

A Taça Warren é uma antiga taça de prata romana decorada em relevo com duas imagens de sexo homossexual. A taça tem o nome de seu primeiro proprietário moderno, o colecionador e escritor Edward Perry Warren, e foi adquirido pelo Museu Britânico em 1999. É geralmente datado do tempo da dinastia Júlio-Claudiana (século I d.C.), mas foram levantadas dúvidas sobre sua autenticidade.[2]

Datação

O Professor de Belas Artes, Dr. John Clarke aproximou a datação da taça com objetos de estilo semelhante encontrados em Pompeia devido a falta de contexto arqueológico.[3] Representações de atos sexuais são amplamente encontrados na arte romana, embora em contraste com a arte grega, cenas heterossexuais muito superam as cenas homossexuais. Taças ilustradas, muitas vezes em pares, foram concebidas como peças nos jantares de conversação.[4]

História Moderna

Taça Warren, Lado A.
Taça Warren, lado B.

Warren comprou a taça de um comerciante em 1911 por £2.000.[5] Foi comprada em Jerusalém e disse ter sido encontrada perto da cidade de Battir,[6] com moedas do imperador Cláudio (r. 41-54 d.C.),[1] possivelmente enterradas durante as convulsões da revolução judaica.

Nós não sabemos ao certo, mas pensa-se que a Taça Warren foi encontrada enterrada em Bittir, uma cidade a poucos quilômetros a sudoeste de Jerusalém. Como chegou a esta localização é um mistério, mas podemos fazer uma suposição. Nós podemos datar o fabrico da taça em torno do ano 10 d.C. Cerca de 50 anos depois, a ocupação romana de Jerusalém provocou tensões entre os governantes e a comunidade judaica que, em 66 d.C., explodiu e os judeus tomaram a cidade de volta à força. Houve confrontos violentos, e pensa-se que a nossa taça pode ter sido enterrada nesta data pelo proprietário fugindo da luta.
 
Neil MacGregor, Diretor do Museu Britânico.[6].

Na década de 1950 a Alfândega dos EUA recusou a entrada da taça e uma série de museus (incluindo o Museu Britânico) se recusaram a comprá-la, pensando que eles nunca seriam capazes de persuadir curadores do museu que foram elegidos pelo Arcebispo da Cantuária devido a seu conteúdo sexual. A taça foi adquirida pelo seu atual proprietário em 1999, por £1.8 milhões para evitar que fosse para o exterior.[7] Isto foi, na época, o item mais caro adquirido pelo Museu Britânico, muitas vezes maior do que o preço pelo qual ele tinha sido oferecido a eles nos anos 1950. Foi o tema de uma exposição dedicada na Sala 3 no Museu de 11 de maio a 2 de junho de 2006, intitulada "A Taça Warren: sexo e sociedade na Antiga Grécia e Roma".[8] O curador Dyfri Williams disse sobre a exposição:

Nós queríamos mostrar este fantástico objeto em um contexto em que nós pudéssemos perguntar o quanto nós entendemos sobre atitudes em relação à sexualidade quando ele tinha sido feito. Esses objetos parecem extraordinários para nós agora, mas havia muitos objetos de uso comum, e pinturas murais e mosaicos em banhos e em casas particulares, mostrando imagens muito semelhantes.
 
Dyfri Williams, curador do Museu Britânico.[9].

De 1 de dezembro de 2006 a 21 de janeiro de 2007 foi exibido no Museu de Yorkshire e,[10] em 2010, em Nottingham. A Taça Warren é o trigésimo terceiro objeto em A História do Mundo em 100 objetos, um série da BBC Radio 4 transmitida pela primeira vez em 2010.[11]

Questão de autenticidade

Em 2008, M. T. Marabini Moevs argumentou em um artigo para o Bollettino d'Arte que a Taça Warren não é de fato um produto romano do início do período imperial, mas foi executada por volta de 1900 por um ourives talentoso treinado na contemporânea Art nouveau, talvez encomendada pelo arqueólogo amador e negociante Fausto Benedetti (1874-1931), para atender o que ele sabia ser o gosto de seu cliente estrangeiro e amigo Edward Perry Warren. Benedetti pode ter trabalhado em colaboração com os irmãos Castellani de Roma, que estavam chefiando ourives em estilos clássicos, e colecionadores e comerciantes de antiguidades. M. T. Marabini Moevs, o autor, afirma que as imagens da taça derivam de fragmentos de várias cenas em cerâmica grega e romana, alguns da coleção Castellani, que foram combinados e modificados para criar as cenas da Taça Warren. O artigo também contém um apêndice pelo prateiro Cláudio Franchi corroborando a análise histórica, iconográfica e estilística.[12]

Características

Iconografia

Imagem da personagem na soleira da porta.

O lado A da Taça Warren retrata um homem maduro (o participante ativo ou em termos gregos o erastes) praticando sexo anal com um jovem (o eromenos, "amado"), que se abaixa sobre o erastes usando uma corda ou suporte do teto. Enquanto isso, um menino, assiste por trás de uma porta. O lado B representa um jovem agora como o erastes praticando sexo anal com um menino, o eromenos. O penteado do menino é típico do delicatus puer, um menino servo ou escudeiro escolhido para servir como favorito de seu mestre. O adulto usa uma coroa de flores, talvez indicando seu papel como "conquistador erótico". Práticas homossexuais romanas são diferentes daquelas gregas. Na Grécia a pederastia era uma relação socialmente reconhecida entre homens nascidos livres e de status sociais iguais, enquanto que no mundo romano os homens eram livres para se envolver em relações do mesmo sexo sem perda de sua masculinidade apenas enquanto eles tomassem o papel do penetrador e seu parceiro tivesse um status social inferior como um escravo ou prostituto: o paradigma da "correta" sexualidade romana foi o mesmo que conquista e dominação.[13]

Ambas as cenas mostram drapeado têxtil no fundo, bem como uma kithara (um instrumento de cordas) na primeira cena e um aulos (instrumento de sopro) na segunda. Estes, juntamento com a delineação cuidadosa das idades e status e as coroas usadas pelos jovens, todos sugerem uma elite culta, e um ambiente helenizado com música e entretenimento.[14][15]

Manufatura e conservação

Em relatório do Departamento de Conservação, Documentação e Ciência do Museu Britânico de 2004, destacou-se o processo de corrosão e a conservação da taça por meio de microscópio eletrônico de varredura e da técnica de espectroscopia de raios X por dispersão em energia. Quanto a composição a taça é formada por prata (94,5%) juntamento com traços de cobre (3.8%), ouro (0.8%), chumbo (0.8%) e bismuto (0.1%);[16] em estudos para determinar a corrosão detectou-se traços de silício, alumínio, cloreto, sulfeto de prata e iodo.[a][17] A Taça Warren, produzida presumivelmente no Levante (região onde foi encontrada), foi manufaturada através do emprego da modelagem, gravura e soldagem. Consiste em duas alças verticais, agora perdidas, soldadas para facilitar a limpeza e o manuseio, e um pedestal, também soldado. Em seu interior há um revestimento liso de prata mais espessa com rebordo e a decoração externa foi produzida através do emprego da técnica repoussé, bem como de técnicas de gravura.[1]

Ainda em estudos realizados na taça constatou-se presença de prata brilhante na superfície exterior, possivelmente com abrasivos e produtos químicos, adicionada no final do século XIX ou começo do XX. Mais recentemente, porém anterior à aquisição pelo Museu Britânico, resinas acrílicas foram utilizadas para revesti-la; traços de óxido de ferro foram detectados no pé.[1] Uma fenda profunda no lado B e duas menores no lado A são visíveis, tendo todas sido reparadas por um adesivo solúvel de acetona com um suporte de tecido. A base está quebrada e distorcida devido ao pé do pedestal ter sido empurrado para cima, o que gerou uma deformação ligeira na taça; gotas de solda moderna são indícios de que a solda original estava desgastada. O pedestal, quase intacto, possui ligeira deformação em seu anel superior, onde liga-se com a base da taça, e por linhas marcadas em cada lado da haste.[b] Devido à corrosão duas áreas no interior da taça foram quebradas, enquanto em outras três áreas há ausência de prata. Estas deformações foram corrigidas com um adesivo e tecido, possivelmente poliéster.[1]

Notas

[a] ^ Os traços de silício e alumínio detectados são provavelmente provenientes de resíduos de argila, o que indica que a peça foi aquecida no solo; o sulfeto e cloreto de prata são indicativos de corrosão por enxofre proveniente de fontes gasosas.[17]
[b] ^ A deformação do pedestal é atribuída a dois processos de moldagem efetuados na atualidade. Estes processos são indicados pela presença de traços de gesso e silicone nas fendas.[1]

Referências

Bibliografia

  • Clark, John R. (2001). Looking at Lovemaking Constructions of Sexuality in Roman Art, 100 B.C. – A.D. 250 (em inglês). [S.l.]: University of California Press. ISBN 978-0520229044 
  • Pollini, John (1999). «The Warren Cup: Homoerotic Love and Symposial Rhetoric in Silver». Art Bulletin (em inglês). 81 (1). ISSN 0004-3079 
  • Tsetskhladze, Gocha (2007). «Ancient West & East» (em inglês). 6. ISSN 1783-8363 
  • Williams, Dayfri (1999). «The Warren silver cup». British Museum Magazine (em inglês). 35 

Referências

Moevs, M.T. Marabini (2008). «Per una storia del gusto: riconsiderazioni sul Calice Warren». Bollettino d’Arte (em inglês). 146