Furacão de Cuba de 1910

Furacão de Cuba de 1910/
Ciclone dos Cinco Dias
Categoria 4 (EFSS)
Mapa de superfície da tempestade em 10 de outubro
Formação 9 de outubro de 1910
Dissipação 23 de outubro de 1910
Vento mais forte (1 min) 150 mph (240 km/h)
Pressão mais baixa 924 hPa (mbar) ou 693 mmHg
Danos US$ 1,25 milhões
Fatalidades ≥ 113
Áreas afetadas Cuba, Flórida
Parte da
Temporada de furacões no Atlântico de 1910

O Furacão de Cuba de 1910, popularmente chamado de Ciclone dos Cinco Dias, foi um ciclone tropical destruidor e incomum que atingiu Cuba e a Região Sudoeste dos Estados Unidos em outubro de 1910. A tempestade formou-se no sul do Mar do Caribe em 9 de outubro e intensificou-se ao mesmo tempo que se movia na direção noroeste, tornando-se um furacão em 12 de outubro. Depois de atravessar o extremo oeste de Cuba, o ciclone atingiu seu ponto máximo em 16 de outubro, correspondente à categoria 4 da escala de Saffir-Simpson. Movendo-se em sentido horário, ele atinge Cuba novamente. Em seguida, segue para a Flórida, aproximando-se de Cabo Romano. Também passou pela costa sudeste dos Estados Unidos antes de retornar ao mar.

Devido ao seu ciclo incomum, alguns relatórios iniciais sugeriram a existência de duas tempestades. Após ser objeto de vários debates na época, foi identificada como sendo uma única tempestade. A análise do fenômeno meteorológico proporcionou uma maior compreensão de sistemas meteorológicos que tomaram caminhos semelhantes.

A tempestade é considerada um dos piores desastres naturais da história cubana. Os danos foram enormes e milhares de pessoas ficaram desabrigadas. Ela também teve grande impacto na Flórida, incluindo a destruição de casas e inundações. Embora o dano monetário total causado pelo ciclone seja desconhecido, as extimativas de perdas em Havana, a capital de Cuba, ultrapassam US$ 1 milhão e, em Florida Keys, 250 mil. Pelo menos 100 mortes em Cuba se deveram ao ciclone.

História meteorológica

A quinta depressão tropical da temporada de furacões no Atlântico de 1910 começou a se formar em 9 de outubro daquele ano, a partir de uma pertubação tropical no extremo sul do Caribe, ao norte do Panamá. O fenômeno se intensificou ao mesmo tempo em que seguia uma rota para noroeste, atingindo a intensidade de tempestade tropical em 11 de outubro. Continuou a se fortalecer e no dia seguinte alcançou status de furacão.[1] Em 13 de outubro, o sistema foi observado a sudoeste de Cuba,[2] e no outro dia, por um breve período de tempo, o furacão atingiu uma intensidade correspondente à categoria 3 dentre as cinco possíveis da atual escala de Saffir-Simpson. Em seguida, o ciclone percorreu a extremidade ocidental de Cuba, reduzindo um pouco sua intensidade durante essa travessia. Ao sair da ilha em direção ao Golfo do México, o furacão diminuiu sua força consideravelmente.[1]

Trajetória do furacão. O fenômeno surgiu no norte do Panamá, seguiu em sentido noroeste até Cuba, onde fez um giro, e depois tomou rumo nordeste, atravessando a Flórida.

Guiada por correntes de uma área de alta pressão ao norte, a tempestade começou a se movimentar para noroeste e rapidamente se intensificou sobre as águas quentes do Golfo. O fenômeno fez um giro no sentido anti-horário e continuou a amadurecer;[3] em 16 de outubro atingiu seu pico com ventos de 240 km/h (150 mph) e pressão barométrica mínima de 924 hPa (mbar) ou 27,29 inHg.[1] O furacão começou a mover-se para nordeste, aproximando-se mais uma vez do oeste de Cuba, e acelerou em direção ao Panhandle da Flórida em 17 de outubro.[1] O centro do sistema passou a oeste da ilha de Key West e chegou em terra firme próximo a Cabo Romano, quando mudou-se para o norte.[3] A partir de então, o furacão moveu-se para o interior do continente, deteriorando-se numa tempestade tropical. Do nordeste da Flórida, o ciclone fez uma curva para o leste e deixou a costa do Sudeste dos Estados Unidos antes de sair para o Oceano Atlântico. Acredita-se que a tempestade tenha se dissipado no dia 23 de outubro.[1]

O furacão é considerado incomum em função do seu giro próximo a Cuba, tendo alguns relatórios iniciais sugerido a existência de duas tempestades distintas.[3] A Monthly Weather Review descreve o evento como distúrbios múltiplos e relata que o primeiro furacão dissipou-se no centro do Golfo do México depois de atravessar Cuba, enquanto que o segundo formou-se posteriormente e atingiu a Flórida.[2] Na época, a trajetória da tempestade foi objeto de vários debates. O sistema foi identificado mais tarde como sendo uma única tempestade, e sua análise proporcionou uma maior compreensão de sistemas meteorológicos que tomaram caminhos semelhantes.[3] Na edição do dia 19 de outubro de 1910, o jornal The Washington Post trouxe em suas páginas:

" Se duas tempestades derramaram fúria em águas cubanas na semana passada, ou se a mesma tempestade revisitou Cuba, atravessando o sul da Flórida em seu trajeto de retorno, é algo que ainda precisa ser determinado. Se a [última] suposição for confirmada mais tarde, o giro da tempestade, após a sua entrada no Golfo do México, deve ter sido extraordinariamente súbito e acentuado."[4][nota 1]

Impacto

Em 15 de outubro, todas as embarcações dentro de um raio de 500 milhas (800 km) de Key West foram informadas da aproximação de uma tempestade, e muitos navios permaneceram ancorados nos portos.[5] Em toda a região, avisos e alertas de tempestade foram emitidos.[1]

Cuba

A tempestade provocou grande destruição em Cuba, sendo considerada um dos piores ciclones tropicais já registrado na ilha em todos os tempos. Ventos fortes e chuvas torrenciais inundaram ruas, destruíram celeiros,[2] e danificaram plantações. Em particular, a tempestade causou danos substanciais ao tabaco cultivado na região do distrito de Vuelta Abajo, na província de Pinar del Río.[6] O mau tempo provocou destruição em muitos vilarejos cubanos.[7] A cidade de Casilda foi devastada,[8] enquanto que a localidade de Batabanó foi inundada por enchentes. O furacão cortou as comunicações em várias regiões do interior da ilha.[9] A maioria das fatalidades e danos materiais foram registrados na província de Pinar del Río, no extremo oeste da principal ilha de Cuba.[10]

O periódico norte-americano The New York Times escreveu à época que Cuba "provavelmente sofreu o maior desastre material de toda a sua história".[11][nota 2] Foi relatado que milhares de camponeses ficaram desabrigados devido ao ciclone. As perdas em Havana também foram extensas, e ao longo da costa dezenas de navios que transportavam cargas valiosas naufragaram. A tempestade também danificou seriamente bens armazenados no cais local e barcaças.[12] Enormes ondas atingiram a terra firme e causaram inundações.[10] Numerosos navios e pequenas embarcações foram destruídas pelo ciclone.[13][14] As ondas inundaram cerca de 2,6 km2 de terra costeira de Havana.[11]

Estima-se que pelo menos 100 pessoas perderam a vida, principalmente devido a deslizamentos de terra, incluindo cinco pessoas em Havana.[15][16] No entanto, alguns relatos dizem que o número de fatalidades foi tão alto quanto 700.[17] As estimativas iniciais dos prejuízos financeiros causados ​​pela tempestade chegaram a casa dos milhões de dólares, incluindo as perdas de US$ 1 milhão em Havana, em grande parte devido a destruição da alfândega, onde se encontravam muitos bens valiosos.[11] Alguns destes edifícios foram varridos para 800 metros de distância, e os ventos arrancaram o telhado do armazém principal.[10]

Holliswood

Uma escuna de quatro velas, o Holliswood, ficou preso na tempestade no Golfo do México. A embarcação partiu de Nova Orleães em 1 de outubro, transportanto madeira de cipreste. A tripulação lutou contra a tempestade durantes vários dias e, eventualmente, os mastros foram cortados para evitar o naufrágio.[18] Alagada, a escuna foi desviada vários quilômetos da sua rota original.[19] O proprietário do Holliswood, Paul Mangold, fez a seguinte descrição para The New York Times:

" Na quarta-feira, dia 12, fomos atingidos pela primeira vez pelo furacão. [...] O vento sobrou sobre nós, por vezes, a uma velocidade de cem milhas. Os mares vieram de todas as direções, embora fosse do estibordo [lado direito] que o verdadeiro problema parecia vir"[18][nota 3]

Um barco a vapor chamado Harold avistou o navio eresgatou toda a sua tripulação, a exceção do capitão E. E. Walls, que optou por ficar para trás.[18] Na época, o Holliswood ficou bastante danificado, tendo sua cabine destruída e seu leme arrancado. A tripulação, aparentemente, aconselhou o capitão que a embarcação não poderia permanecer à tona por mais de cinco horas, mas ele descartou esta possibilidade. Depois que a tripulação foi resgatada, o capitão Walls lutou durante dias contra a tempestade sem comida ou água doce. Em 20 de outubro, o Parkwood resgatou Walls, que estava inconsciente, mais o temor inicial foi de que ele estivesse morto.[19] Uma vez a bordo, ele recuperou a consciência e, aparentemente em meio a um episódio de delírio, pediu para ser devolvido ao Holliswood. Por fim, o capitão do Parkwood concordou em rebocar o navio danificado até a costa.[19]

Nordeste da Flórida e sul dos Estados Unidos

Os danos na costa atlântica dos Estados Unidos foram menos graves, embora em Jupiter o escritório do Serviço Nacional de Meteorologia dos Estados Unidos tenha relatado:

" As chuvas neste momento causam mais dano do que o vento. Choveram todos os dias a partir do 3º até o 13º, com uma precipitação total de 5,96 polegadas, e os riachos e matas planas estavam cheios de água quando a tempestade começou. De 14 a 18 [houve a precipitação de mais] 14,27 centímetros.".[20][nota 4]

Mapa meteorológico da tempestade em 20 de outubro.

Um grande número de pinheiros foi derrubado nos arredores da cidade de Jupiter, sendo que um homem nas proximidades de Little Haiti morreu ao ser atingido por um tronco que caiu. Pequenas embarcações, docas e abrigos para botes sofreram danos; em compensação, os efeitos da tempestade na Costa Leste foram menores em comparação com outras áreas. Porções da Florida East Coast Railway[nota 5] ficaram alagadas, e os reparos foram antecipados por serem dispendiosos. Os ventos atingiram uma escuna encalhada em Boca Raton, matando três pessoas e deixando o resto da tripulação presa por 12 horas até a chegada do resgate. Estima-se que o impacto do ciclone nas culturas de cítricos na região variou amplamente.[2]

Em seu caminho para o mar, o furacão passou a oeste de Jacksonville. Embora tenha havido muito pouco dano nos arredores da cidade, ventos persistentes vindos do nordeste causaram inundações em áreas costeiras baixas. Inundações menores foram estendidas para a Georgia e a Carolina do Sul; inicialmente, as interrupções de comunicação entre as cidades levaram a relatos exagerados sobre danos nesses estados. Iniciada em 18 de outubro, uma precipitação leve começou a cair em Savannah. no dia 19, os ventos atingiram 110 quilômetos horários. No entanto, foi dito que os piores danos à cidade foram consequências das marés altas, e não dos fortes ventos. Alguns rios transbordaram, submergindo a terra ao redor. Danos menores também ocorreram em Charleston, na Carolina do Sul.[2]

Ver também

Notas e referências

Notas

  1. Livre tradução para: " Whether two storms have been raging in Cuban waters within the past week, or whether the same storm has revisited Cuba, traversing southern Florida in its backwards course, remains to be determined. If the later supposition be correct, the recurve of the storm, after its entrance into the Gulf of Mexico, must have been unusually sudden and sharp."
  2. Livre tradução para: "probably suffered the greatest material disaster in all its history"
  3. Livre tradução para: " On Wednesday, the 12th, we began to get the first of the hurricane. [...] The wind circled about us sometimes at a hundred-mile rate. The seas came from all directions, though it was from the starboard [right side] that the real trouble seemed to come."
  4. Livre tradução para: " The rainfall at this point did more damage than the wind. It had rained every day from the 3rd to the 13th, with a total fall of 5.96 inches, and the creeks and flat woods were full of water when the first storm began. From the 14th to the 18th, inclusive, 14.27 inches more fell."
  5. A Florida East Coast Railway é um sistema ferroviário para movimentação de cargas com 351 milhas de extensão, localizado ao longo da costa leste da Flórida. É o provedor ferroviário exclusivo aos portos do sul da Flórida e conecta-se com outros sistemas de transporte ferroviário de mesma natureza em todo o país. Tem sede na cidade de Jacksonville.[21]

Referências

  1. a b c d e f Hurricane Specialists Unit. «Easy to Read HURDAT 1851–2009». National Hurricane Center. Consultado em 7 de janeiro de 2012 
  2. a b c d e Charles F. von Herrmann (Outubro de 1910). «District No. 2, South Atlantic and East Gulf States» (PDF). Monthly Weather Review. 38 (10). American Meteorological Society. pp. 1488–1491. Consultado em 29 de abril de 2010 
  3. a b c d Barnes, p. 93
  4. «The West Indian Hurricane». The Washington Post. 19 de outubro de 1910 
  5. «Hurricane Nears the Florida Coast». The New York Times. 15 de outubro de 1910. Consultado em 24 de dezembro de 2009 
  6. «Great Storm in Cuba: Severe Damage Done to the Tobacco Crop». The Observer. 16 de outubro de 1910. p. 9 
  7. «West Indian Hurricane». The Scotsman. 18 de outubro de 1910 
  8. «Terrific Hurricane». The Evening Post. 15 de outubro de 1910. Consultado em 24 de dezembro de 2009 
  9. «Hurricane in Cuba Costs Many Lives». The Spokane Daily Chronicle. 17 de outubro de 1910. Consultado em 24 de dezembro de 2009 
  10. a b c «Cyclone in Cuba». The Scotsman. 18 de outubro de 1910 
  11. a b c «Cyclone Works Havoc in Cuba» (PDF). The New York Times. 18 de outubro de 1910. 1 páginas 
  12. «The Hurricane in Cuba». The Manchester Guardian. 17 de outubro de 1910. p. 7 
  13. «West Indian Hurricane». The Scotsman. 19 de outubro de 1910 
  14. «The Hurricane Moving North». The Manchester Guardian. 20 de outubro de 1910 
  15. Longshore, p. 109
  16. «Liners Defy Cyclone». The Washington Post. 15 de outubro de 1910. p. 1 
  17. «Cuba Hurricanes Historic Threats: Chronicle of hurricanes in Cuba». Cuba Hurricanes. Consultado em 24 de dezembro de 2009 
  18. a b c «Sticks to His Ship, a Derelict at Sea» (PDF). The New York Times. 25 de outubro de 1910. Consultado em 12 de fevereiro de 2010 
  19. a b c «Skipper, Who Stood by Ship, Picked Up». The New York Times. 27 de outubro de 1910. Consultado em 2 de fevereiro de 2010 
  20. Barnes, p. 94
  21. «About - Florida East Coast Railway». FEC Railway. Consultado em 25 de março de 2012 

Bibliografia

  • Barnes, Jay (2007). Florida's Hurricane History. [S.l.]: Chapel Hill Press. ISBN 0807830682 
  • Longshore, David (2008). Encyclopedia of Hurricanes, Typhoons, and Cyclones. [S.l.]: Checkmark Books. ISBN 0816074097 

Ligações externas